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MARI TORTATO
THIAGO REIS
da Agência Folha, em Joinville e São Paulo
Os 1.400 exames de detecção de mal de Chagas analisados pelo Laboratório Central de Santa Catarina tiveram resultado negativo, divulgou, nesta sexta-feira, o superintendente de Vigilância em Saúde do Estado, Winston Luiz Zonkowski. Todas as pessoas haviam ingerido caldo de cana em municípios tidos como os focos das investigações pelo Ministério da Saúde.
Para o comando da investigação, o resultado negativo para esses primeiros testes reforça a tese de que o barbeiro pode ter contaminado feixes de cana de apenas um ou dois quiosques da beira da BR-101, entre Joinville e Navegantes, no litoral do Estado. E que, portanto, o foco é localizado.
Para o diretor da Vigilância Epidemiológica, Luis Antonio Silva, as primeiras respostas apontam que a investigação tem de ser limitada à região. "Estamos tentando fechar a história da contaminação e as análises negativas em pessoas que não apresentam os sintomas nos dão um pouco de tranqüilidade", disse.
Silva afirma que ainda irá esperar novos dados antes de confirmar a tese. "Ainda vamos aguardar manifestações de outros Estados e dos países que receberam o alerta --Argentina, Uruguai e Paraguai-- para termos mais certeza. Se for notificado algum caso de turista que ingeriu garapa entre Joinville e Navegantes --trecho suspeito de ser foco da infestação do inseto, o quadro fecha."
A contaminação da garapa já matou cinco pessoas no Estado, segundo a Vigilância Epidemiológica. Uma sexta morte, de um turista boliviano, em Joinville, ainda não tem diagnóstico conclusivo. De 61 casos suspeitos da doença, 30 foram confirmados --incluindo os cinco mortos-- e 23 descartados hoje também por resultados de exames de laboratório, segundo a Secretaria de Saúde. Oito continuam em investigação, contando o óbito do turista.
O ministério confirma ainda um outro caso em Curitiba (PR), totalizando 31. O consumo do caldo de cana foi proibido em todo o Estado.
Segundo Zonkowski, em dez dias todos os pacientes que pleitearam o exame de detecção de mal de Chagas terão sido atendidos. "Eu não creio que sejam feitos 50 mil exames. Vai dar muito menos que isso. Uns 30 mil no máximo". Ele diz que a demanda não está tão grande quanto o esperado, após a negativa da maioria dos exames requeridos.
Ainda segundo ele, o Estado tem capacidade para realizar 4.800 exames por dia. Mas, segundo o próprio superintendente, só foram realizados até agora quatro mil desde a confirmação do primeiro caso, há uma semana.
"O problema é que ainda não chegaram os testes", diz, em referência à remessa prometida pelo Ministério da Saúde. Segundo o superintendente, cada kit custa em média R$ 956 e, com ele, é capaz de se fazer até 200 testes.
Zonkowski afirma que o Estado possuía um estoque e está sendo abastecido aos poucos pelo governo federal, que deve enviar, até segunda-feira, cem kits no total.
A presença do inseto nos canaviais e nos depósitos de cana foi considerada improvável pelos sanitaristas que estão em campo.
Ainda nesta sexta-feira, equipes de sanitaristas da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) e da Secretaria Estadual da Saúde continuaram procurando o barbeiro na mata e em terrenos próximos dos quiosques onde se deu a contaminação, mas nada encontraram. O trabalho também ocorre à noite em razão do inseto ser atraído pela luz artificial.
Confirmação preliminar
Um novo caso de desenvolvimento da doença de Chagas surgiu hoje em Jaraguá do Sul --60 km a oeste de Joinville (SC).
O caso ainda é tratado como suspeito porque, segundo o chefe da Vigilância Epidemiológica, apenas um dos testes (o Elisa) --de uma bateria de três-- já apontou a presença do protozoário causador, no sangue. Ainda assim, o doente já passou a receber medicação para combater os sintomas do mal de Chagas ontem.
A investigação apontou que o paciente ingeriu caldo de cana em um quiosque de Navegantes --como cerca de 90% dos casos confirmados. O paciente foi liberado para tratamento ambulatorial, por apresentar apenas sintomas leves, e deve ficar em casa.
O surto, que ocorreu devido ao consumo de caldo de cana contaminado, já provocou três mortes, de acordo com o Ministério, que divulgou um alerta para ajudar a identificar possíveis casos da doença entre turistas que tenham visitado o Estado.
"Durante a investigação preliminar foi identificada a exposição comum dos casos, relacionada ao consumo de caldo de cana (...) No decorrer da investigação se identificou em exames parasitológicos de sangue a presença do 'Trypanosoma cruzi' (protozoário causador da doença)", informou o Ministério em comunicado.
Os sintomas da doença são cansaço, dor de cabeça e taquicardia.
Técnicos do Ministério da Saúde interditaram os locais que vendiam a bebida no Estado, que faz fronteira com a Argentina.
THIAGO REIS
da Agência Folha
O Estado não tem estrutura para realizar inúmeros exames de detecção de doença de Chagas. Essa é a avaliação do diretor da Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina, Luis Antonio Silva. Nesta terça-feira, os casos considerados suspeitos subiram de nove para 18. Outros 19 já haviam sido confirmados. Três pessoas morreram devido à doença.
Outras três mortes, em Joinville, Blumenau e Videira, estão sendo investigadas. "A prioridade é atender os sintomáticos", disse Silva. "Nós não fazemos diagnóstico de Chagas nos hemocentros. Então precisamos organizar o serviço ainda. As pessoas têm de aguardar um pouquinho. Elas vão ser atendidas."
Silva faz uma estimativa de que 50 mil pessoas irão procurar os laboratórios para realizar o exame. O Estado, segundo ele, possui apenas 25 centros capazes de realizá-lo. "Tem gente aqui da capital que tomou caldo de cana ontem nas praias de Florianópolis exigindo fazer exame. Isso é um absurdo. As pessoas não têm bom senso", diz.
De acordo com o Ministério da Saúde, os casos se concentram na região que abrange os municípios de Navegantes, Itajaí, Penha, Piçarras, Barra Velha, Araquari, Joinville, Balneário Barra do Sul, Garuva, Itapema, Camboriú, Balneário Camboriú, São Francisco do Sul e Itapoá.
A orientação do órgão estadual é que apenas os moradores dessas localidades que tenham ingerido a bebida façam o exame. No entanto, todos os estabelecimentos que comercializam caldo de cana no Estado continuam proibidos de vender o produto.
Segundo Silva, há um clima de pavor sem necessidade. "Confirmada a doença, existe remédio, tem tratamento, não tem problema nenhum", afirma.
As pessoas que ainda não apresentaram os sintomas, mas desejam a confirmação através do exame, estão sendo orientadas pela Secretaria da Saúde a fazer um cadastro nos postos dos municípios. A intenção da Vigilância Epidemiológica é agendar os exames conforme a urgência do caso.
O infectologista Antonio Miranda, diretor do Hospital Nereu Ramos, em Florianópolis, afirma que existe um pânico infundado e concorda que apenas os que apresentam os sintomas devem fazer o exame.
Rio Grande do Sul
Seis técnicos do Rio Grande do Sul chegaram nesta terça ao Estado para auxiliar no atendimento e nas investigações. As hipóteses levantadas são as de que o barbeiro ou as fezes infectadas tenham sido moídas junto da cana ou que um carregamento já contaminado tenha entrado em Santa Catarina.
De acordo com o secretário da Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Gasparini Terra, os agentes possuem experiência, pois ajudaram a erradicar a doença no Estado.
O Rio Grande do Sul é considerado modelo e deve receber, nos próximos dias, um certificado da Organização Pan-Americana da Saúde por ter se tornado zona livre de transmissão.